De caiaque pela Indochina: remadas pelo rio Mekong e o grande lago Tonle Sap

Fotos: Carlos Viveiro / Thaís Viveiro
De caiaque pela Indochina: remadas pelo rio Mekong e o grande lago Tonle Sap

Mais uma viagem e novas águas exploradas. Dessa vez, remei por dois países que nunca havia imaginado visitar: Laos e Camboja. São praticamente 24 horas no ar para chegar a essas terras entre a Tailândia e o Vietnã, lá na Indochina. A longa viagem vale a pena? Muito, especialmente para as pessoas aquáticas como nós. Tive tempo para fazer uma remada em cada país – dois passeios que me levaram a ambientes bastante diferentes, mas que também deixaram a vontade de um dia voltar e explorar ainda mais a região.

O stand up paddle ainda não chegou nessas bandas, então é bastante difícil encontrar uma prancha para alugar. Levar uma inflável é uma boa opção. Eu, como tinha outros objetivos nessas férias e precisava viajar leve, não quis levar o equipamento. Achei mais fácil optar pelo caiaque dessa vez, que é possível arranjar nas agências locais de turismo.

Remada Laos

O Rio Mekong corre calmo pela cidade de Luang Prabang, no Laos

A minha primeira remada foi em Luang Prabang, uma cidade recortada pelos rios Nam KhanMekong, no norte do Laos. Os dois rios passam imponentes, mas relativamente calmos, pela simplicidade acolhedora da cidade. É um lugar apaixonante.

Acompanhada por um guia local e dois australianos, comecei esse tour não pelo grandioso Mekong, conhecido por lá como “Mãe das Águas“, mas justamente por um de seus filhos, o rio afluente Nam Ou. Onde quer que você vá remar por lá, a dica é partir logo cedo para aproveitar a névoa da manhã, porque depois das 11h o sol é implacável. Foi o que fizemos. Colocamos os caiaque na água na pequena vila de Hatga, cerca de uma hora de carro ao norte da cidade.

Remada no Laos

Penhascos altos criam uma belo cenário para uma remada no Rio Nam Ou, afluente do Mekong

Na Indochina, o ano é dividido basicamente em duas estações principais: a estação seca e a estação das chuvas. É muito importante checar as condições dos rios de acordo com o período de viagem. Como fui na época de seca, ainda que no começo, a remada foi bastante tranquila. Algumas corredeiras surgem tímidas, mas não criam nenhuma dificuldade. O stand up funcionaria muito bem, pelo menos nesse trecho do rio. Já na estação das chuvas, o cenário deve mudar bastante.

Descemos o Nam Ou por quase duas horas até ele se encontrar com o Mekong, remando uns 10 km por um belo cenário com penhascos grandiosos. Com uma correnteza levemente mais forte no Mekong, seguimos até a parada mais aguardada do nosso trajeto: as cavernas Pak Ou. São duas cavernas encravadas na montanha na margem direita do rio, habitadas por milhares de estátuas de Buda. É surreal encontrar essa coleção preciosa em um lugar tão escondido.

Remada Laos

À beira do Mekong, as cavernas de Pak Ou guardam uma coleção de milhares de estátuas de Buda

Remada Laos

A tradição de levar as estatuetas para as cavernas remonta ao século XVI

As placas preparadas para nós, turistas, explicam: essas cavernas são consideradas sagradas, pois estariam conectadas ao espírito do Mekong, que corre logo à frente. Por isso, por muito tempo desde o século XVI, foi tradição fazer peregrinações até elas e levar as estatuetas, muitas delas comissionadas pela família real.

Na mesma altura da caverna, mas do outro lado do rio, existe uma prainha onde é possível fazer passeios de elefantes. Logo que estacionamos os caiaques lá, dois deles surgiram sem cerimônia caminhando em direção ao rio. Dispensei o passeio, mas gostei de ver esses gigantes tão de perto.

Elefantes na prainha à beira do Mekong

Passeios de elefante são oferecido em uma prainha à beira do Mekong

Terminamos a remada seguindo por mais meia hora no Mekong até a vila de Sang Ha, ou Whiskey Village, onde é fabricado um whiskey local. A bebida é geralmente vendida em garrafas com cobras e escorpiões (para isso, não encontrei a explicação). É um lugar relativamente turístico hoje, mas, andando pelas ruas menores, dá para ter uma ideia de como é realmente a vida no Laos – isso, no entanto, seria assunto para todo um outro post.

Vale a pena ficar pelo menos uma semana em Luang Prabang para explorar com calma seus rios. É obrigatório também conhecer as cachoeiras da região, totalmente diferentes de qualquer outra que eu já tinha visto. Ao invés de uma queda d´água alta, elas são formadas por quedas menores, intercaladas por piscinas naturais. A cor da água é incrível. Fiz um trekking até a cachoeira Tad Sae, mas dá para chegar lá também pelo Rio Nam Khan. Deve dar uma bela remada.

Remada no Laos

As cachoeiras de Luang Prabang formam piscinas naturais de um azul espetacular

Siem Reap, no Camboja, é um dos principais destinos dos turistas na Indochina e para lá eu fui em seguida.

O grande chamariz da região são os templos de Angkor, construções de cerca de mil anos atrás que passaram séculos abandonadas. Resultado: as pedras esculpidas com Budas, Shivas e outras figuras hindus e budistas se misturam com as marcas do tempo e da natureza, que foi tomando conta do espaço ao longo dos anos.

Templos Angkor

O trabalho do homem e da natureza se misturam nos templos de Angkor, no Camboja

Templos Angkor

Antes de partir para a água, vale a pena explorar Angkor por um ou dois dias

Sem dúvida, é um lugar incrível. Mas, templos à parte, o Camboja é aqui pra gente um lugar bastante peculiar também por conta de suas águas. Isso é nítido mesmo antes de aterrissar. A vista do janela do avião é a de um país alagado – e, nesse período, logo no começo da estação seca, o Camboja é isso mesmo.

Grande parte da água que se vê lá de cima é do Tonle Sap Lake, por onde remei nesse segunda parte da viagem. Também chamado de Grande Lago, o Tonle é, na verdade, metade lago, metade rio. Um rio que também corre para o Mekong, mas apenas na estação seca. Na época de chuvas, a cheia do Mekong faz com que ele mude seu curso e volte a desaguar no lago.

E o Tonle não é peculiar apenas por essa dança, mas também por mudar drasticamente de volume entre as estações (aparentemente, ele chega a ser oito vezes maior na estação das chuvas). Por conta dessa variação, existem muitas vilas flutuantes pelo país. Isso mesmo, flutuantes. São casas feitas de bambu que sobem e descem de acordo com o nível da água.

Passei por uma delas, de barco, antes de começar a minha remada. Mea Chrey tem cerca de 150 famílias, um barco-mercado que vai de porta em porta e uma escola para as crianças. Cheguei em um fim de tarde e as crianças brincavam com suas canoas de um lado para o outro. A vida corre normal e tranquila, mas a infraestrutura ainda é um grande problema. A água, por exemplo, não é muito limpa – e por isso mesmo comecei a remada mais adiante.

Remada no Camboja

Na época de chuvas, o Camboja é um país alagado. Daí surgem as curiosas vilas flutuantes

Remada no Camboja

As casas são feitas em uma plataforma de bambu que sobe e desce de acordo com o nível da água

Com dois guias locais, segui de barco pela parte mais aberta do Tonle. Várias árvores submersas pelo caminho dão uma boa dimensão da variação do nível do lago. Uma parte do tronco delas já aparecia. Alguns meses antes, no entanto, a água cobria uma boa porção das copas, conforme comentou um dos guias.

Já mais afastados da vila, pulamos para o caiaque e adentramos os manguezais do lago. Os caminhos são estreitos e a mata bastante fechada, com galhos e troncos por toda a parte. A vegetação forma praticamente uma cerca, isolando toda essa parte do Tonle Sap. Aí vem o silêncio e você rema sem vento nenhum, só curtindo o passeio.

É maravilhoso ter a oportunidade de dispensar um motor e remar por onde os barcos turísticos não chegam. Em momentos como esse, quando você passa a linha que o turismo mais convencional não ousa passar, é que você sente que está mesmo tão longe de casa e tão próximo de onde você de fato está. E o caiaque, stand up paddle e outros esportes outdoor são um bom empurrão para fazer isso.

Remada do Camboja

O Tonle Sap é o maior lago de água doce do sudeste Asiático e, com um ecossistema rico, é protegido pela UNESCO

Remada do Camboja

Os manguezais labirínticos do Tonle Sap rendem uma remada tranquila e um passeio fora do rota turística

Se você for remar por um desses países, aconselho contratar um guia local para os passeios. As culturas são muito diferentes e, se precisar de alguma informação, pode ser difícil achar pelo caminho alguém que fale um inglês decifrável. Em Luang Prabang, remei com o pessoal da White Elephant Adventures e, em Siem Reap, com o Unique Kayak Cambodia.

Thaís Viveiro

Thaís Viveiro é jornalista e praticante de stand up paddle. Está sempre atrás de dicas e experiências para evoluir na arte de remar em pé. Costuma remar no litoral norte de São Paulo.

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