Remada no umbigo do mundo: de stand up paddle na Ilha de Páscoa

Remada no umbigo do mundo: de stand up paddle na Ilha de Páscoa

A minha primeira remada de stand up paddle em águas gringas aconteceu em um destino improvável, pouco fácil e pra lá de especial: Ilha de Páscoa, um pedaço de terra chilena no meio do Pacífico. São 5 horas de voo a partir de Santiago para chegar no que é considerado o lugar habitado mais isolado do planeta. O “umbigo do mundo”, como também é conhecida a ilha, é povoado por misteriosas esculturas de pedras (os famosos moais) e vulcões inativos. Com pouca vegetação, poucas praias e clima mais ameno, não faz bem o cenário de uma ilha paradisíaca, mas é apaixonante mesmo assim.

Digo que o destino era improvável porque o stand up não é muito conhecido por lá. Existem apenas três praticantes de SUP na ilha toda. Entrei em contato com um deles, o francês Christophe Conry, para realizar as minhas remadas. Christophe mora há 8 anos na Ilha de Páscoa e é o pioneiro do esporte em sua nova casa. Para ele, um certo orgulho entre a comunidade local, reconhecida por seus remadores de canoa polinésia, explica a baixa popularidade do stand up na ilha. De fato, não vi ninguém remando de pranchão durante os dias em que estive por lá.

Para o nosso primeiro passeio, fomos até Hanga Nui, uma baía próxima da ponta leste da ilha. No trajeto até o local, de carro, passamos por toda a costa sul, formada inteira por rochas, onde estão alguns temidos picos de surfe.

Hanga Nui foi uma escolha perfeita para a estreia na Ilha de Páscoa. A baía fica em frente ao Ahu Tongariki, a maior plataforma de moais de ilha, com 15 deles. Um pouco atrás, fica o vulcão Rano Raraku, a “fábrica” dos moais, de onde eram retiradas as pedras para construir essas estátuas que evocam poder e proteção. Sem dúvida, um canto bastante especial desse mundão.

stand up paddle ilha de páscoa_15 moais

Ahu Tongariki com seus 15 moais e, atrás, o local em que fizemos a primeira remada

Enquanto remávamos, era difícil tirar os olhos do mar, de um azul que eu nunca tinha visto igual. Azul turquesa em áreas mais rasas e azulão em áreas mais profundas. Com a limpidez da água, dá para ver o fundo de pedras mesmo nos locais de maior profundidade. Saindo um pouco da baía, remamos um pouco para o leste margeando um imenso paredão de rocha vulcânica em direção a uma pequena ilhota próxima, também rochosa.

Stand up paddle na Ilha de Páscoa

Eu e meu irmão Felipe e, ao fundo, o vulcão Raraku

No dia de nosso segundo passeio, o tempo não estava nenhum pouco favorável, com o mar mexido e o vento batendo bem forte, uma ventania que não é muito rara por lá. Remamos então em Hanga Piko, uma baía com um pequeno porto próximo à única cidade da ilha, Hanga Roa. Como era um trecho suficientemente largo de água abrigada, aproveitamos esse lugar um pouco mais tranquilo em meio ao vendaval para treinar técnica. Ainda que você já saiba remar, sempre vale a pena ouvir as dicas de remadores com mais experiência. Christophe basicamente virou do avesso a minha remada, sugerindo um movimento mais de “enterrar” o remo no mar do que de “puxar” a água, uma técnica que exige muito menos força dos braços.

Stand up paddle na Ilha de Páscoa_Hanga Pico

Hanga Piko, uma boa opção de água abrigada para remar

Um dos passeios obrigatórios para quem vai à Ilha de Páscoa é visitar as suas únicas praias de areia, Anakena e Ovahe, ambas bem pequenas e cheias de charme. Para chegar em Ovahe, a menor e menos frequentada, é preciso passar uma pequena barreira de pedras, um esforço mínimo que é totalmente recompensado pela tranquilidade do lugar. Com snorkel, vi vários peixes pequenos de cores diversas entre os corais que ficam a poucos metros da costa. Infelizmente, não vi nenhuma das tartarugas gigantes que circulam pelas redondezas da ilha. Esse encontro ficou para a próxima!

snorkel ilha de páscoa_ovahe

A pequena praia de Ovahe e o azul turquesa do mar

Snorkel na Ilha de Páscoa

Na praia de Ovahe, você encontra corais a poucos metros da costa

Snorkel em Ilha de Páscoa

Não apareceram tartarugas, mas não faltaram peixes entre o corais de Ovahe

Para os interessados em snorkel ou mergulho, uma opção ainda melhor é ir de barco até as proximidades do ilhote Motu Nui. Não conseguimos ir pra lá dessa vez por conta das condições do mar, mas dizem que é um lugar fantástico para observação de fauna marinha. Além disso, é outro ponto bastante especial para a história e tradições da população local, a comunidade rapa nui. Motu Nui fazia parte do trajeto da competição do homem-pássaro, uma competição anual que, realizada por cerca de 200 anos a partir de  1680, definia qual tribo governaria a ilha pelo próximo ano. Já mergulhando perto de Hanga Roa, você vai descobrir que tem moai até na água! Dá uma olhada nos 1´50 desse vídeo:

Aqui um vídeo de um trecho da costa sul, mostrando um pouco dessa paisagem formada por grama, pedras, moais e mar. A música é do grupo rapa nui Tao´a Ra´e:

E, por fim, um mapa com os locais mencionados nesse post:

Stand Up Paddle na Ilha de Páscoa

Thaís Viveiro
Thaís Viveiro é jornalista e praticante de stand up paddle. Está sempre atrás de dicas e experiências para evoluir na arte de remar em pé. Costuma remar no litoral norte de São Paulo.  •  Ver todos os posts