Cananéia à Guaraqueçaba: 90 km de SUP por um dos principais trechos da Mata Atlântica no Brasil

Cananéia à Guaraqueçaba: 90 km de SUP por um dos principais trechos da Mata Atlântica no Brasil

Logo na primeira semana do ano, o remador Wiliam Mamedio fez uma bela expedição de stand up paddle do litoral sul de São Paulo até o Paraná, explorando canais que passam pelas entranhas de umas das áreas mais preservadas da Mata Atlântica no Brasil. Ele mesmo conta essa aventura aqui no WeSUP!

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É interessante como o início de um novo ano desperta em muitas pessoas a iniciativa de fazer algo novo, diferente, até mesmo desafiador! Eu certamente sou uma dessas pessoas. Por isso resolvi que começaria o ano de 2016, em que também completo meus 40 verões, impondo um desafio a mim mesmo.

Tenho feito longos trechos de SUP Race desde que conheci esse modelo de prancha há cerca de 4 anos. Desde então passei a me interessar pela logística que está por trás de remar longas distâncias, pela exigência física e mental necessárias para chegar ao fim de uma expedição e, sobretudo, pela maneira especial com que se pode interagir e observar o meio ao redor.

Com isso, comecei minhas pesquisas e tracei um percurso de cerca de 90 km saindo de Cananéia, no litoral sul de São Paulo, seguindo através dos canais dos manguezais do Complexo Estuarino Lagunar, e chegando em Guaraqueçaba, no Paraná. Nesta região está o maior remanescente contínuo da Mata Atlântica brasileira, considerado um dos maiores criadouros de espécies marinhas do Atlântico sul.

No meu planejamento, resolvi que faria a viagem solo, sem barco de apoio. Dividi a distância a ser remada em 3 partes, intercaladas com um dia de descanso em alguma vila às margens dos canais. Assim poderia descansar, conhecer um novo lugar e me preparar para o trecho seguinte.

Me propus a levar no meu SUP tudo o que seria necessário para a expedição: roupas, barraca, comida, equipamento fotográfico e outros acessórios. Conversando com meu shaper Cláudio Pastor (RJ), projetamos um Race 12’6’’ que levaria, além do meu peso, mais 20 kg estimados de carga.

sup travessia cananeia

Escolhi um hotel à beira do canal do Porto Cubatão, perto da balsa para Cananéia, para me hospedar na véspera da partida para a remada. Mal dormi naquela noite pensando nos últimos detalhes de tudo. Entendi que assim que subisse naquela prancha, o que eu teria disponível pelos próximos 6 dias de viagem seriam os itens acomodados sobre ela. Eu não queria esquecer nada importante!

Fiz uma última pesquisa sobre as condições do tempo, ventos e influência da maré cruzando diversas fontes, para remar nas melhores condições possíveis.

No dia 05 de janeiro, raiando o dia, eu já estava no canal distribuindo os 5 volumes, hermeticamente fechados em sacos-estanque, sobre o SUP. Com a carga extra diminuindo a flutuação, era muito importante garantir que tudo ficasse seco.

Já passava um pouco das 9h quando parti para o primeiro trecho da viagem. Uma remada de 38 km até a Vila do Marujá. Já na saída, me acompanharam alguns botos, que são frequentes naquela região.

A remada rendeu muito bem, sem nenhum vento ou correnteza até a boca da barra de Cananéia. Ali atravessei um trecho de quase 5 km com muito vento e marolas laterais. Uma remada difícil e cansativa. Mas, quando alcancei a Ilha das Cascas já na entrada do canal de Ararapira, o vento constante de leste associado à maré enchente me ajudaram a aumentar minha velocidade média. Aproveitei o momento favorável para me alimentar também. Mantive sempre um dos meus volumes ao meu fácil alcance com 1,5 L de água, 1,5 L de isotônico, carboidrato gel, frutas desidratadas e biscoitos de aveia.

sup travessia cananeia

No trajeto pelo canal de Ararapira é intensa a movimentação de embarcações, sobretudo com turistas atraídos pela beleza da Mata Atlântica, pelos numerosos sambaquis (sítios arqueológicos do período colonial) e pela bela cachoeira Grande, tudo isso na rota para o Marujá.

Fui aportar no camping do “Seu” Salvador, já na vila, no fim da tarde. Foram quase 7 horas de remada. Arrumei um cantinho no terreno gramado, armei a barraca e fiz o jantar. Levei um fogareiro com botijão, um conjunto de panelas e talheres e todo o arsenal de alimentos integrais e desidratados, para um bom café da manhã e um revigorante “almo-janta” em cada dia da viagem.

No dia seguinte me ocupei de fazer pequenos reparos na prancha. Essa é outra dica importante se você pretende fazer uma remada de dias, sem apoio. Leve um “kit primeiros socorros” para sua prancha que te permita fazer um conserto emergencial, de forma a não prejudicar ainda mais seu equipamento e sua própria expedição.

Também aproveitei pra passear. Da vila é possível atravessar um trecho de restinga que leva do canal à praia do Marujá, uma extensa faixa de areia branca na Ilha do Cardoso. A praia é linda apesar de todo o lixo plástico que se acumula nela, trazidos pelo movimento intenso das marés. Infelizmente essa é uma realidade que atinge até mesmo o mais preservado dos lugares.

sup travessia caneneia

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A segunda parte da remada me levou por 25 km entre Marujá e a Vila Fátima, no Superagui (PR). Neste percurso, passei pela cidade fantasma de Ararapira, pela simpática vila do Ariri e pelo canal do Varadouro, atravessando a divisa de São Paulo com o Paraná.

Com 6 km de extensão, esse canal foi construído pelo homem e inaugurado em 1952 com o objetivo de ligar a região lagunar de Cananéia à Baía dos Pinheiros em Paranaguá. De quebra, o canal deu origem à Ilha de Superagüi, que hoje faz parte de um parque nacional. O canal é estreito, mas muito bonito. Tem margens cobertas por manguezais e mata atlântica original e é usado apenas por um ou outro barco de passeio, já que é um tradicional reduto de pescadores. Escondidas na mata, há cachoeiras, orquídeas, bromélias e muitas aves como os flamingos, garças, guarás e papagaios.

Na pequena Vila Fátima, cerca de 10 famílias vivem em função da pesca e da criação de ostras. E lá me permitiram acampar no gramado atrás de um posto de saúde desativado. Aproveitei para conversar com os pescadores locais e obter mais informações sobre a rota pelos estreitos mangues em direção à Guaraqueçaba. Eu já tinha um traçado gravado no meu GPS, mas os pescadores tinham os atalhos!

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Parti da Vila Fátima para a terceira e última remada da viagem rumo à Guaraqueçaba no dia 09 de janeiro, por volta das 08:30 quando a maré estava terminando de vazar. A ideia era alcançar a Baía dos Pinheiros já no começo da enchente para facilitar a remada dali em diante. Dependendo da fase lunar, verifica-se nessa região um grande coeficiente de marés, tornando as correntezas muito intensas.

Por dentro dos estreitos canais de mangues, o visual era deslumbrante. O contato muito próximo da natureza. Nem as incansáveis mutucas tiraram o prazer de estar naquele local. Muitos barcos de pescadores que passavam por mim pelo trajeto gentilmente ofereciam ajuda e orientações, curiosos com aquele “barquinho” cheio de bagagens.

Ao fim de 25 km, cumpridos em 5 horas, desembarquei no meu ponto final, imensamente feliz e realizado com toda aquela nova experiência!

sup travessia cananeia sup travessia cananeia

Me alojei na casa do Alexandre, proprietário de uma pousada num dos trapiches da cidade. Ele foi um verdadeiro anfitrião! Me ofereceu um quarto e um farto jantar regado a cervejas. Não poderia ser melhor! No dia seguinte, peguei um barco que me levou pelo mesmo caminho de volta à Porto Cubatão, onde estava meu carro.

Gostaria de agradecer à minha esposa Lívia, ao meu shaper Claudio Pastor e a cada pessoa que me apoiou direta ou indiretamente na realização desse projeto.

E que venham outros mais!

SUP Trip trajeto

Thaís Viveiro

Thaís Viveiro é jornalista e praticante de stand up paddle. Está sempre atrás de dicas e experiências para evoluir na arte de remar em pé. Costuma remar no litoral norte de São Paulo.

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