Bate-papo com Roberta Borsari: a circum-navegação de Fernando de Noronha

Foto: Zaira Matheus/All Angle
Bate-papo com Roberta Borsari: a circum-navegação de Fernando de Noronha

Roberta Borsari. Foi o primeiro nome que aprendi depois que comecei a ler tudo o que encontrava por aí sobre stand up paddle. Atleta premiada em diversas competições de kayaksurf, Roberta descobriu o stand up em 2010 e tem feito bom uso do pranchão desde então. Fiquei apaixonada pelos seus textos no site SUPtravessias, projeto em que se dedica a visitar ilhas do Brasil e do mundo, sempre com a companhia de uma prancha de SUP. Ilha de Páscoa, Galápagos, Maldivas e as ilhas do litoral norte de São Paulo estão entre os paraísos visitados.

Em meados de maio, a aventureira partiu para Fernando de Noronha para mais uma de suas conquistas: a circum-navegação do arquipélago. Foram quase 11 horas de uma remada nada fácil, conforme ela me contou em uma conversa por telefone semana passada. Roberta compartilhou algumas de suas estratégias para lidar com as adversidades do “mar de fora” de Noronha, explicou o seu fascínio por ilhas e mostrou toda a sensatez e cautela que está por trás de uma atleta tão inspiradora. Confira o papo:

Roberta, como surgiu o seu interesse por ilhas?

Eu conheci o stand up em uma ilha. Fui para o Havaí em 2010, surfar de caiaque, e um amigo me apresentou o stand up. Foi uma paixão à primeira remada. Foi lá mesmo que eu já comecei a praticar o esporte e comprei a minha primeira prancha. Então, quando voltei, passei a fazer remadas sempre buscando a conquista de ilhas. Aqui no Brasil, eu fico na Barra do Sahy, no litoral norte de São Paulo, e tem várias ilhas lá na frente da praia. Eu já tinha feito essas ilhas de caiaque, mas foi um novo passeio, um novo desafio, por estar com um equipamento novo.

E uma das remadas que fiz foi para o Montão de Trigo, que fica a cerca de 12 km da costa. Fui remando de stand up, um cardume de golfinhos passou no caminho, a gente dormiu na ilha, conversou com os remadores. Fui com barco de apoio e foi tudo organizado pra que a gente pudesse ser recebidos lá. E a experiência que eu passei com a comunidade que vive nessa ilha foi muito importante. Aprendi muitas coisas. Então vi que existe uma cultura e um conhecimento das comunidades caiçaras que nem sempre são divulgados. A partir daí, surgiu a ideia de montar o projeto SUPtravessias para que eu possa visitar ilhas, não só do Brasil, para fazer um registro das belezas, das curiosidades, da história e das comunidades locais. Tudo isso pela ótica do stand up que, além de ser um equipamento super versátil, é excelente para a observação de animais e para remadas em ambientes preservados, já que ele não tem nenhum tipo de impacto no ambiente, não faz barulho, não gera fumaça.

Roberta Borsari no Montão de Trigo

Roberta foi a primeira supista a fazer a travessia da Barra do Sahy até o Montão de Trigo

Quanto tempo levou o planejamento da circum-navegação de Fernando de Noronha?

Uma viagem dessas nunca é decidida de uma hora pra outra. São sempre de quatro a seis meses de planejamento para poder fazer a operação com segurança e principalmente para entender como funciona o meio ambiente que vou visitar, porque às vezes vou lidar com condições da natureza, correntes e ventos que não são do ambiente em que estou acostumada a treinar. Por mais que você viaje e tente simular o máximo possível, a natureza é sempre muito instável, principalmente quando você fala de ilhas oceânicas. Então Fernando de Noronha teve um planejamento bastante detalhado. Fiquei direto em contato com pessoas da ilha que conheciam bem as características do arquipélago, justamente porque essas ilhas oceânicas têm características um pouco mais potencializadas. O vento é mais forte, as correntes são mais fortes, o clima é mais instável. Tive a ideia de fazer a volta à ilha seis meses antes da realização e foi uma média de quatro meses de planejamento para operacionalizar tudo para fazer a circum-navegação com sucesso.

Você comentou no SUPtravessias que foi uma travessia realizada em condições difíceis, que foi bastante técnica…

É, apesar de todo esse planejamento…Eu fui com uma média de 10 a 12 dias de janela. Nunca vou realizar uma atividade dessas com a data certa, porque quem diz quando eu vou ter a condição favorável para realizar é a natureza. Então eu fui com essa janela, fui no período adequado pra fazer a travessia, fui conversando com mergulhadores, com pescadores, com pessoas que vivem na região, tive apoio da operadora de mergulho Atlantis, que tem bastante experiência nessa região, e mesmo assim a gente não teve uma boa condição pra fazer a travessia no período em que eu estive lá. Os ventos estavam muito fortes e as correntes, que normalmente já são fortes, acabaram ficando mais intensificadas por causa do vento. A ilha tem duas faces: o “mar de dentro” é uma área profunda e mais protegida e o “mar de fora” é raso e bastante agitado. Na condição que peguei, o mar de fora ficou mais agitado ainda. Foi uma remada bem difícil.

Pra você ter uma ideia, foi montada uma estrategia em que você não vai costeando a ilha o mais próximo possível. A gente teve que fazer uma triangulação: remar o mais pra fora possível da ilha, para poder pegar uma corrente e vento um pouco a favor. Ao invés de fazer um desenho ovalado em volta da ilha, fiz praticamente um triângulo. Foram 50 km em condições bem extremas.

Rota da circum-navegação de Fernando de Noronha de stand up paddle

A rota da circum-navegação de Noronha, realizada no dia 24 de  maio

Então, quando você fala em travessia técnica, você se refere principalmente ao planejamento da rota?

Foi técnica na realidade em todos os aspectos. Não foi um tipo de remada que você vence com a força. Você tem que ver a posição do vento, a movimentação das correntes, tem que ter o conhecimento e experiência, inclusive das pessoas da região, pra saber a melhor movimentação que você tem que fazer. A técnica é um conjunto como um todo: a prancha adequada, o equipamento adequado, o posicionamento pra você aguentar remar cinco, seis horas em condições bem difíceis. Uma coisa é você pegar um trecho um pouco mais extremo por uma ou duas horas, outra coisa é você remar nessas condições por cinco, seis, sete horas. Não adianta contar só com os braços.

No total, foram cerca de dez horas de navegação, certo?

No total certinho, foram dez horas e 40 minutos.

Como você administra força e resistência em uma remada longa como essa?

Cada atleta tem a sua estratégia pela experiência que tem. Primeiro, tem toda uma preparação antes da atividade em si em que você já vai conhecendo o seu corpo. Eu procuro fazer bastante suplementação. É muito importante que você seja suplementado de hora em hora, o seu corpo precisa ter combustível durante todo o trajeto. Utilizo basicamente água e carboidrato em forma de pó ou de gel, não uso nenhum tipo de estimulante. Gosto de levar açaí também, é um hábito meu. Pra uma remada de mais de sete horas, levo um pouco de batata com sal, porque, se você vai comendo só doce, uma hora começa a enjoar. Não gosto de me alimentar muito pra não me sentir pesada, então só levo essas suplementações mais leves. E levo também uma solução de três carboidratos pra um pouco de proteína. Tudo isso é contabilizado a partir de um programa feito com a minha nutricionista, a Tânia Rodrigues, da RGNutri. Pra você ter um bom rendimento nesse tipo de operação, é super importante que você esteja orientado profissionalmente e bem suplementado para que o seu corpo trabalhe bem por um longo período. Você não pode desgastar o corpo todo de uma vez.

Eu levo uma mochilinha para ir tomando a água e a água com carboidrato sem precisar parar. Mas, se eu vou tomar um gel, tenho que parar pra abrir a mochila. Ou, se vou fazer troca de suplementação, eu encosto no barco de apoio. E aí essas paradas para suplementação são também o meu período de recuperação e descanso, para que eu possa ter o corpo com alta resistência por todo o período. É claro que depois de oito ou nove horas de remada você não vai estar no seu alto rendimento, mas vai estar com seu corpo preparado pra remar ainda longas distâncias.

E às vezes você calcula uma média de tempo de remada, mas ela pode ser bem maior do que você projetou. Então você tem que ter um planejamento da sua preparação física e da sua suplementação de forma que esteja preparado pra encarar essa situação. Você pode encontrar condições de vento e corrente bem mais fortes e então ter que remar muito mais do que você esperava.

Roberta Borsari em Fernando de Noronha: o mar de fora

O “mar de fora” de Fernando de Noronha, ainda mais agitado do que o normal (Foto: Diego Magevski/All Angle)

E quais foram os principais aprendizados dessa viagem?

Nesse caso, um dos maiores aprendizados que tive foi mesmo essa questão do planejamento e de como lidar com as adversidades. Eu planejei toda a operação pra fazer numa condição favorável e eu não encontrei essa condição – é importante reforçar que eu só fiz essa operação nessa condição porque estava muito segura, da minha condição como atleta e de toda a equipe de apoio. Então não foi loucura. Não preciso provar nada pra ninguém, é uma realização pessoal. Se eu não me sentisse segura, eu não faria a operação com essas condições. Então esse foi o meu maior aprendizado, a importância de planejar tudo nos mínimos detalhes pra conseguir lidar de maneira segura com todas as adversidades que você pode encontrar. Por mais que você planeje, o cenário que você vai encontrar pode ser completamente diferente do que você esperava.

A imagem que você tinha de Fernando de Noronha mudou depois da travessia?

Com certeza. A relação que eu acabo criando com todos os meus destinos é muito mais intensa do que só uma visita turística. No caso de Noronha, toda a comunidade do arquipélago acabou se envolvendo com a operação como um todo. Os pescadores, quem trabalhava com embarcação, os mergulhadores, todo mundo viu que era uma condição mais difícil e todo mundo tentou me ajudar. Então você cria um vínculo diferente com o lugar. Se eu chegasse lá com o mar flat, com condições super favoráveis, talvez eu não tivesse conhecido tantas pessoas e não tivesse tanto envolvimento com todo mundo como aconteceu.

Roberta Borsari em Fernando de Noronha

Roberta aproveitou a viagem para mergulhar e explorar a fauna de Noronha (Foto: Naiara Bucair/All Angle)

Thaís Viveiro

Thaís Viveiro é jornalista e praticante de stand up paddle. Está sempre atrás de dicas e experiências para evoluir na arte de remar em pé. Costuma remar no litoral norte de São Paulo.

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