Bate-papo com Bárbara Brazil: garra, planejamento e evolução na vida de atleta

Foto: AleSocci/GreenPixel
Bate-papo com Bárbara Brazil: garra, planejamento e evolução na vida de atleta

Bárbara Brazil conheceu o stand up paddle durante uma sessão de pesca com amigos em 2011. O pranchão, no entanto, logo se tornou muito mais do que apenas um grande aliado na pesca. No final do mesmo ano, a atleta baiana já era campeã brasileira de SUP Race, tendo sido inclusive a única mulher a encarar a desafiadora etapa do campeonato em Fortaleza. Desde então, Babi (como é mais conhecida) não deixou a bola cair. Pelo contrário, mudou alguns hábitos, buscou suporte para melhorar seus treinos e encontrou o seu caminho para conseguir se sustentar com o esporte. No final do ano passado, ela se consagrou tetracampeã brasileira de SUP Race.

Em um papo muito bacana por telefone, Babi me contou um pouco sobre a sua evolução no stand up, a sua relação com as competições, compartilhou algumas dicas e falou até sobre música. Confira aqui:

Bárbara Brazil_supfish

Você entrou de cabeça no SUP, né? Você começou a remar em 2011 e, no mesmo ano, já teve resultados incríveis. O que te motivou a se dedicar tanto ao stand up?

Sempre gostei muito de esporte e sempre fui muito competitiva. Eu já competia em maratonas aquáticas, em provas de natação em águas abertas, e remava de paddleboard. O paddleboard é muito usado no Havaí e na Califórnia, mas no Brasil é meio fraco ainda. Só que a Bahia tem um grupo forte – e eram os meus amigos com quem eu saía pra pescar. Eu acabei me envolvendo com o stand up por causa da pesca.

E aí depois eu comecei a competir. Mas, no meu grupo de amigos, a gente já se encontrava e competia juntos. Como não tinha outra mulher, eu competia com os caras. Em 2011, eu competi pela primeira vez e fiquei em segundo no Brasileiro (etapa de Brasília). Isso me deu uma motivação muito forte. Era a minha primeira competição de stand up e eu fiquei em segundo lugar. Aí falei: “eu vou buscar esse primeiro!”.  Então comecei a me dedicar aos treinos, comprar equipamento, correr atrás das coisas. E acabou que eu fui campeã nesse mesmo ano.

O que você acha que te ajudou a evoluir tão rápido nesse início?

Eu já tinha a base da natação e do paddleboard. E sempre fui muito ativa, minha capacidade aeróbica é boa. É uma coisa que ajuda a manter uma performance de alto rendimento em uma atividade como o stand up, em que você faz longas distâncias. Você trabalha com o corpo no limite. Sempre trabalhei com o meu corpo no limite. Sempre fiz atividades intensas. Acredito que isso tenha me dado uma base, um fundamento para resistir às provas.

Bárbara Brazil_windsurfin

Como é o seu treino hoje?

Nos primeiros anos, eu não tinha treinador, tirava o treino da minha cabeça mesmo. No último ano, comecei a fazer treino com um cara aqui de Salvador, o Marcelo Afonso, que já treinou vários atletas de triathlon. Eu fiz a proposta pra ele: “você não quer treinar alguém de SUP?”. Ele topou e a gente começou a trabalhar juntos. Eu fiz vários testes e comecei a fazer acompanhamento nutricional também. Então as coisas foram se ajeitando de tal forma que hoje em dia eu consigo treinar e consigo trabalhar. Antes, eu treinava e ficava exausta.

Remar longas distâncias não é só um desafio físico, mas mental também, não é?

Aí é ter sangue nos olhos. Ter garra, resistir à dor e resistir às dificuldades que aparecem. Por exemplo, cair em uma boia e ter que levantar e começar tudo de novo. Na Califórnia, eu tomei uma remada na cara, aí caí, larguei em último, fiquei mal, fiquei com o nariz doendo. Várias coisas podem acontecer. E tem a dificuldade também de não ter patrocínio, que me deixava mais pra baixo antigamente. Hoje estou mais tranquila, já sei que a realidade é essa. Tenho que manter meus títulos para trabalhar com a minha escola, é aí que eu consigo ganhar dinheiro.

Mas eu sempre gostei de longas distâncias. Quando eu remava de paddleboard, fiz uma remada de Salvador até o Morro de São Paulo, são 64 km. Fiz essa remada com três amigos meus. Então eu sempre tive essa coisa de longas distâncias na cabeça. Eu não tenho dificuldade para superar uma distância. Tem gente que não gosta de ficar muito tempo remando, ficar sofrendo demais. Eu não, quanto maior o desafio, mais eu quero ir. Quanto mais difícil, mais eu quero ir. É isso que me ajuda a me manter ali. Se estou cansada, tomo um gel de carboidrato, vou me alimentar, me hidratar. Tem as manhas pra continuar lá com aquela energia e tem que ter o foco na cabeça: vou chegar, vou completar. Vou terminar o que comecei. Não consigo pensar em começar uma coisa e não terminar.
barbara brazil_stand up paddle

Babi, antes de todo o seu envolvimento com o SUP, você trabalhava como educadora musical. Existe um paralelo entre as duas áreas?

Exatamente. Eu fiz música. Toco alguns instrumentos e fiz mestrado em educação musical e agora estou fazendo um doutorado. E hoje eu trabalho isso puxando para a edução física. Hoje, eu uso a filosofia do treinamento esportivo para o músico trabalhar o que ele quer estudar. Normalmente, o músico acha que tudo é na cabeça, todo esforço é intelectual. No entanto, ele tem um esforço físico muito grande. Eu sou flautista, eu sei o que é se preparar para um concerto, preparar uma peça. Você passa horas estudando, usando o seu corpo, os seus músculos. O atleta já sabe que ele vai treinar um pouco a cada dia até chegar no objetivo dele. O músico não, ele mete o pau todo dia, dá uma carga muito grande e acaba se machucando. A minha ideia do doutorado é utilizar a filosofia do treinamento esportivo, que é a periodização, você ir progressivamente aumentando a carga de trabalho, e trabalhar um objetivo por dia, não tudo de uma vez. Na verdade, é sistematizar o estudo do músico. Tá dando certo, está sendo super aceito. Então o esporte ajuda a música nessa questão de arrumar o treino.

Você pode dar alguma dica para quem quer evoluir no SUP?

Três coisas são muito importantes: alimentação, descanso e treino certo. A cabeça boa também é fundamental, é um lado muito importante do esporte em si e também de qualquer coisa que a gente faça. Vai ter dia que você não vai estar bem, mas tem que saber lidar com isso.

Hoje em dia, eu tenho uma dieta bem específica. Eu sei o que eu posso comer antes e depois do treino, faz muita diferença. Isso ajudou muito a minha performance. Descansar é importante. Eu era muito agoniada, não queria descansar nenhum dia. Hoje em dia, se eu dei aula o dia inteiro e estou cansada, não vou fazer mais nada, vou ler um livro, fazer outra atividade. E treinar certo é a coisa da periodização, ter objetivos. Por exemplo, a gente tem o mundial em maio. Daqui pra maio, já tenho o meu treino todo pronto, porque eu sei que, em maio, vou ter uma maratona de 18 km e uma prova curta, de 6 km, com boia e com onda. Então eu tenho um cara que vai fazer o meu treino daqui até lá e eu vou seguir essa planilha de treino. É importante você se planejar, saber o que você quer e ter alguém que vai te ajudar ali no treino.

Qual é o seu lugar preferido para remar na Bahia?

Boa pergunta! Meu lugar preferido é aqui onde eu moro, na Barra, na verdade, a Baía de Todos os Santos. A Baía começa na Barra e vai até o Recôncavo Baiano. É uma baía enorme. Ela tem uma abertura muito grande, são quase 15 km de extensão na boca. Tem uma variação de maré muito grande, então é muita água entrando e saindo. E é uma água limpa. Todo dia eu venho aqui, moro a cinco minutos do clube onde eu trabalho e de onde sou sócia desde pequena. Aprendi a velejar, aprendi as coisas do mar, aprendi tudo aqui no Yacht Club. Não vejo lugar melhor. Aqui é perfeito. Tem um pôr do sol maravilhoso, às vezes tem vento, tem downwind. Dá pra fazer tudo aqui, é bem dinâmico.

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Thaís Viveiro

Thaís Viveiro é jornalista e praticante de stand up paddle. Está sempre atrás de dicas e experiências para evoluir na arte de remar em pé. Costuma remar no litoral norte de São Paulo.

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