Bate-papo com Ricardo Beck Cougo: técnica e planejamento em longas distâncias

Bate-papo com Ricardo Beck Cougo: técnica e planejamento em longas distâncias

Uma das coisas mais bacanas de fazer entrevistas é ser surpreendida pelas experiências que existem por trás de seu entrevistado, para além dos fatos e feitos que o fizeram estar lá à sua frente (ou do outro lado da linha). Esse papo com Ricardo Beck Cougo foi cheio disso. Conheci o Ricardo por conta dos vídeos das longas travessias que ele tem feito. Todas travessias solo, sem apoio, chegando até a marca de 60 ou 70 km. O stand up paddle, no entanto, é só um hobby para Ricardo e apenas um entre tantos outros esportes que já passaram por sua vida.

Ricardo é consultor empresarial e palestrante, mas já foi executivo, professor de edução física e personal trainer. Já praticou handball, triathlon, muay thai, karatê e vela. Já tem muitas outras travessias na conta, realizadas antes de o SUP aparecer em sua vida. Nessa conversa, ele conta um pouco de sua experiência e explica o planejamento por trás de suas remadas. Boa leitura!

Muito legal falar com você, Ricardo. Tenho acompanhado as suas remadas…

Eu brinco, cada louco com a sua mania, né! Vou te contar como eu cheguei nessas travessias. Comecei a velejar com 14 pra 15 anos, em veleiros pequenos, e velejo em veleiro de oceano há 30 anos. Passei anos levando veleiro de um lugar para outro, como hobby. Fiz o litoral do Brasil inteiro. Então a minha experiência com mar, navegação, corrente, maré e clima vem daí. Tenho 50 anos e essas mesmas coisas eu faço desde os 14 anos de bicicleta, depois a cavalo (já fui de Curitiba a Floripa a cavalo, 10 dias). Depois fiz várias vezes o litoral do Brasil de moto. Sempre sozinho, sem equipe de apoio e planejando. Só que, quando eu era moleque, eu planejava do meu jeito. Essas coisas sempre estiveram no meu DNA.

O stand up eu conheci há quatro anos. Remei pela primeira vez em 2012. Estava no Rio de Janeiro a trabalho, a reunião acabou mais cedo, então aluguei uma prancha de stand up em Copacabana. Dei a primeira remada e apaixonei. Até penso comigo: como é que eu não pensei nisso antes? Não é que um maluco resolveu fazer travessia solo sem equipe de apoio do nada. Esse tipo de aventura sempre fez parte da minha história.

E por que solo?

Primeiro pelo contato com a natureza, de estar lá sozinho. O que mais me deixa motivado e feliz nas travessias é quando estou passando por regiões totalmente inabitadas. Também por causa do desafio, que me obriga a ter um planejamento muito completo, muito detalhado. E tem aquela coisa: eu só posso contar com o meu preparo físico, com a minha cabeça, com o meu coração, com a minha vontade. A travessia, pra mim, é 80% mental e 20% físico. Se você não estiver preparado fisicamente, você não pode nem pensar nisso. Mas o que me move fazer mesmo é essa força mental. Estar lá sozinho. Agora pretendo ir de Cananeia, no litoral de São Paulo, até Pontal do Sul/Ilha do Mel, isso vai dar cerca de 100 km. Vou dormir duas noitas na praia, em local de reserva, ou seja, vou dormir lá sozinho.

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Como você trabalha o lado mental do desafio?

Aí volto de novo na minha origem. Na primeira vez que deu na telha, eu peguei a bicicleta escondida dos meus pais, aos 14 anos, e fui daqui para o litoral paranaense, que são 102 km. Eles acordaram de manhã, foram olhar no quarto e eu não estava lá. Liguei na hora do almoço dizendo que eu estava na praia. Não precisa dizer que eu apanhei na volta, né?

Mas já vi vários depoimentos em relação a isso, inclusive do Bart de Zwart. Todas essas pessoas que velejam solo, vão fazer o caminho de Santiago de Compostela, fazem travessia ou fazem viagem de moto sozinhas, têm uma coisa em comum: têm uma cabeça boa para estar sozinho em qualquer situação e se ver seguro e confortável. Então, o principal é você estar planejado. E mesmo assim tem os furos. Na última travessia, quando eu entrei no rio Itajaí-Açu, com tudo planejado, a gente achou que a correnteza do rio iria estar de 3 a 4 nós, que eu seria rebocado até o mar por 60 km. Na verdade, a correnteza estava mínima e a maré entra 60 km rio adentro, coisa que ninguém sabia, nem eu, nem as pessoas locais com quem me informei. Quando cruzei com o primeiro pescador, ele disse: “daqui três horas a maré vai começar a encher e você vai pagar os seus pecados”. Aí entra a cabeça. Quando eu dou a primeira remada, a única possibilidade que existe é de chegar. Eu fui preparado para fazer essa travessia em 9 horas e, por conta das dificuldades, eu fiz em 13, com quase 2 horas de remada à noite. Aí escureceu, eu coloquei luz na cabeça, led no meu colete salva-vidas, no bico e na rabeta da prancha. Eu estava igual um pinheirinho. Eu não fui preparado para remar à noite, mas, se chegasse a noite, eu estaria preparado. [Veja o vídeo dessa travessia no final do post]

E levo suplemento, faca, kit de primeiros socorros. Eu conto com a possibilidade de me machucar, ser picado por uma cobra, já atravessei reservas ecológicas por onde ninguém passa remando. Existem essas variáveis todas. Mas, para mim, é motivador. Não pode ser um peso. Se virar um peso, você não acaba.

Que ferramentas você usa para fazer o planejamento das remadas?

Eu começo a preparar cada travessia um mês antes. Eu tenho várias rotas planejadas pelo Brasil. Em Paraná e Santa Catarina, os trajetos estão praticamente esgotados. O programa que eu uso para mapear a rota é o Navionics. Aí eu vejo a tábua de marés. A maré é um processo matemático. Tem algumas coisas importantes para saber: no Brasil, a maré vazante é muito mais forte do que a maré enchente. A maré vaza de norte para sul do Brasil, ela vem varrendo a costa de norte para sul. O que isso implica no planejamento? Vamos supor que você saia de um rio e entre em mar aberto, com maré vazante (jogando a água do rio para o mar). Se você não souber que a maré vaza de norte pra sul, imagine você sair de uma maré vazante em um canal e precisa ir para esquerda, mas a maré está de vazante, então ela vai te jogar para direita. É um detalhe bobo, mas faz toda diferença na estratégia, no horário que você vai sair. Ou, como a maioria das travessia que eu fiz, que foram pelo mar, eu tenho que ter esses horários da maré para saber se eu vou de sul para norte ou de norte para sul. Para mim é indiferente o meu ponto de saída. O que vai determinar meu ponto de saída é a maré e o vento.

Faltando uma semana, eu cruzo três sites de meteorologia todos os dias. O Windfinder, é o que eu mais confio, estatisticamente é o que mais tem acertado pra mim. Mas já abortei 30% da travessias que ia fazer dois dias antes porque mudou totalmente o boletim do vento e do clima. Então eu nunca vou no risco total. Eu vou no risco calculado. Mas eu brinco: como estou de colete e leash, o máximo que pode acontecer é eu encostar, pegar um taxi e ir pra casa. Ou mandar mensagem pra deus e o mundo com a minha posição pelo GPS.

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Você vai sempre com celular e GPS? 

É, em alguns lugares o celular não dá linha. E o GPS offline dá um posicionamento totalmente preciso. Eu já peguei várias situações em canais e baías, por exemplo. em que, se errar a entrada, você vai pegar um braço de rio que anda 15 km para dentro do mangue e não acaba em lugar nenhum. Imagina você remar 15 km, chegar no final do nada e dizer: errei a entrada. São horas em que, mesmo tendo o mapa na cabeça e o mapa impresso em um plástico, eu ligo o GPS, vejo a minha marcação e para onde devo ir. É pura navegação.

Como é o seu preparo físico?

Eu comecei jogando handball, aos 14 anos. Depois fiz muay thai e karatê, depois triathlon e aí já comecei a fazer algumas travessias nadando no mar sozinho, para treinar. Depois fiz vela oceânica e hipismo rural. E aí a minha preparação hoje em dia, ao contrário do que todo mundo pensa, é uma preparação muito pequena. Comecei a praticar mesmo stand up no dia 4 de janeiro do ano passado. Tem gente que acha que eu estou remando há quatro ou cinco anos. Faço uma hora de musculação duas vezes por semana, com exercícios específicos para o stand up, pedalo duas vezes por semana de mountain bike e, agora, por uma questão de trabalho, remo aos sábados, de três a quatro horas. Mas eu me condicionei remando 40 ou 50 km por semana nos oito primeiros meses, de janeiro a agosto do ano passado. E aí vem uma coisa que eu indico para quem quer fazer remada longa: invista 10% do tempo em treinamento funcional e academia e 90% em estar em cima da prancha remando durante horas. Agora estou me preparando para uma remada de 105 km e aí eu coloco dois halteres de 10 quilos amarrados na prancha e eu remo com esses 20 quilos na minha prancha de 3 a 4 horas, porque vou levar de 14 a 16 quilos de bagagem durante os três dias de remada. É uma coisa óbvia, mas quem não está focado no planejamento não faria isso.

Então, todo o meu treinamento é focado na técnica da remada. E esta remada de travessia não tem absolutamente nada a ver com a remada técnica da categoria race, que é uma remada de sprint, de força e de cadência muito rápida. O que é fundamental: quando você está a favor da maré ou a favor do vento, eu não remo, eu deposito o remo na água para manter o alinhamento e o rumo que eu quero. Se você vai sair da água em 10 horas, você não pode começar a sentir uma dorzinha no quadril e outra no ombro com três horas de remada. Eu tenho remado de tênis muito, porque esses decks todos são preparados para pegar onda ou para a categoria race, que são tiros rápidos. Um deck para travessia deveria ser um deck liso, sem ranhuras. Depois de 4 horas de pé nesses decks, começa a dar choque nos dois pés, então é a hora de colocar o tênis. Se eu for remar contra a maré, é uma remada. Se eu for remar com vento lateral, é outra remada. Se eu for remar com vento, é outra remada. Isso faz com que eu consiga avançar independente do vento, da maré e da correnteza, na direção em que eu preciso ir.

entrevista sup Ricardo Beck Cougo

E como você desenvolveu a sua técnica?

Eu pesquiso horas durante um mês sobre técnicas de remada. Todos os vídeos possíveis que existem na Internet eu já vi dez vezes. Eu também troco muita mensagem com o Andre Torelly e com o Paulo, que está fazendo o litoral do Brasil. Para mim é uma alegria, porque eu sempre fui fã dos caras e agora eles acompanham o meu trabalho também. A gente está sempre conversando. E uma coisa que nós temos em comum, guardadas as devidas proporções, é que eles entendem que a remada é tudo.

Thaís Viveiro

Thaís Viveiro é jornalista e praticante de stand up paddle. Está sempre atrás de dicas e experiências para evoluir na arte de remar em pé. Costuma remar no litoral norte de São Paulo.

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